Eu me sinto em casa no silêncio. No meu silêncio, eu ouço a melodia que não havia. Eu ouço o meu corpo procurar a canção perfeita: o amor. Um grande amor passado pelo meu corpo, deixando-me marcado, “que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure” (Vinícius de Moraes).

“Ainda que amar seja um receio, uma lembrança falsa e vã, e a noite deste vago anseio não tenha amanhã” (Fernando Pessoa), eu falo de amor. De um amor que se levanta e se desperta em mim. De um amor que acontece no instante: sem antes, sem depois, presente puro, eternizado nos meus sentidos - visão, audição, olfato, tato, paladar - “todos órgãos de fazer amor com o mundo, de ter prazer nele” (Rubem Alves).

O meu amor está, precisamente, no meu silêncio. O meu silêncio está, precisamente, no seu corpo. Quando próximo um do outro é uma canção que se revela, “uma melodia que se toca” (Wexkiil). Tocante, delicado, espirituoso, poético, admirável, desafiador..., o amor se manifesta mais ou menos assim:

Como ave
Age
Reage

“Assim é tudo, assim é vida, assim é amor: tempo que flui sem parar” (Rubem Alves). É no seu vôo que ele é belo. É no seu vôo que ele nos envolve, nos move, nos comove, nos transforma, dá forma e deforma suave, reabre os nossos corações, que agem e reagem em silêncio no embaraço de nossos braços e pernas. Ao embaraço de nossos sentimentos, “fazendo da procura o encontro” (Fernando Sabino). Fazendo do encontro uma canção, cheia de sumo, escorrendo como polpa de um fruto que vai da boca ao interior da alma.

E aqui fico eu, sozinho. “Por isso choro e fico triste. Mas não é tristeza de tristeza, é tristeza de que haja tanta beleza, beleza que é demais para mim” (Rubem Alves). Ninguém pode vir onde estou. Por isso, desejo tornar-me pássaro. Um pássaro para voar além das palavras. Voar até o lugar (ou o tempo) onde encontro prazer.

Como pássaro, sairei sem destino, sem deixar rasto. Vou atrás de um amor. De um amor sem ficção, sem renome, sem que ninguém conheça. De um amor sem enganos, sem armadilhas, sem perigo. Esta é a grande redenção, o amor tornando-se livre, tornando-se pássaro em vôo. Cintilando breve canção. Acima do entendimento. Dentro do coração.

Não estranhe minhas palavras, o amor exige. É no amor que o inesperado aparece. Que o vôo acontece. Que os meus desejos se tornam visíveis. Que busco a melodia que não havia. Melodia silenciada no meu coração. Resguardada em meus versos. Eternizada em uma canção. Cantada por nossos corpos em ação.

Falk Brito.

Um comentário:

noeborges@yahoo.com.br disse...

Amei sua meditação ,muito profunda.
Me emocionou...Parabens.Abraços.

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